Boas vistas

domingo, 11 de março de 2012

CHAVES E O RIO

ECO

Ah, terra transmontana
Que não tens um cantor  à tua altura!
Um Marão inspirado,
Um Doiro inquieto,
Um plaino aberto
De carne e osso,
Capaz de recriar noutra verdade
Esta grandeza austera,
Onde as pedras parecem ter vontade,
E nenhuma vontade desespera.

Miguel Torga, Diário XI, pag.123

















terça-feira, 6 de março de 2012

MARÃO (Moura Morta, Ermida)

A ESTRADA QUE NÃO FOI SEGUIDA 


Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,

Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: muito tempo fiquei
Mirando uma até onde enxergava,
Quando se perdia entre os arbustos;

Depois tomei a outra, igualmente bela
E que teria talvez maior apelo,
Pois era relvada e fora de uso;
Embora, na verdade, o trânsito
As tivesse gasto quase o mesmo,

E nessa manhã nas duas houvesse
Folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabia como caminhos sucedem a caminhos
E duvidava se alguma vez lá voltaria.

É com um suspiro que agora conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu -
Eu segui pela menos viajada
E isso fez a diferença toda.

Robert Frost, 8trad. de José Alberto Oliveira). Rosa do Mundo- 2001 poemas para o futuro. Assírio e Alvim. 2001.















segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

BARRAGEM DA BARRELA- Rio Pinhão

Este pedaço de terra é sem dúvida agreste, pedregoso e de beleza única. Enclave de duas serras, a da Cabreira e da Padrela, planalto, terra de nascentes de água. Esta barragem é muito recente, e inundou as terras entre a Barrela, Torre do Pinhão e Pinhãocel. Toponímia estranha, mas de história antiga.
Perto, bem perto da barragem a ponte romana das terras de Jales, ponto de escoamento de há longa data do ouro que era explorado nas minas de Campo de Jales, que os romanos já exploravam.
Rodear a barragem é um percurso possível, em cerca de 2 horas e perto de 7 ou 8 quilómetros.


A ponte romana, por onde está inscrito um trilho da Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, penso que o "trilho da Vreia".



A estrada que liga à Barrela.

El caminero.


The road.










A capela da Sra. dos aflitos, mais conhecida pela romaria dos Carrujos.


Este é o ponto da foz da Ribeira da Carva no Rio Pinhão.


O pontão da barragem.


Luz no lago.

E a" Senhora do Lago".

Inundações.









domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sra. DA SERRA- STA. MARTA PENAGUIÃO Parte 2

Percorre-se o Marão em dia de Inverno, com sol, frio e secura preocupante.
Para este segundo acto escolhe-se outro grande poeta português e serrano de nascimento: Eugénio de Andrade. A par com Sofia marcaram a minha juventude, e agora marcam as rugas da velhice.


NUMA FOTOGRAFIA

Não sejas como a névoa, sem quimera.
Demora-te, demora-te assim:
faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo, do deserto ou do mar.



A CHEGADA



DAI-ME UM NOME

Dai-me um nome, um só nome
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.

Um só nome para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,

chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.

Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar, possa entrar numa canção.


MAIS PERTO DAS ESTRELAS





















MENSAGENS



DA MEMÓRIA

Branco, branco e orvalhado,
o tempo das crianças e dos álamos.


AOS CÉUS
O DESERTO

É o deserto- tenho quinze anos
e muito tempo para morrer.
Sentado na inclinação do sol
conto os meus dias
ou as pequenas hastes
do vento onde nenhuma ave
aproximava o céu.
Não há erro possível: oásis
ou mar das ilhas
só a palavra.



DESPEDIDA


A TORRE

Eu queria uma torre
alta
para a sua alma.
Eu, se quisesse
alguma coisa seria um rio;
um rio onde dormir
com a luz destas pedras por navio.





AO CAIR DA TARDE


O SILÊNCIO

Dai-me outro verão nem que seja
de rastos, um verão
onde sinta o rastejar
do silêncio,
a secura do silêncio, a lâmina acerada do silêncio.
Dai-me outro verão nem que fique
à mercê da sede.
Para mais uma canção.


AS RUGAS DE DEUS

DE PERFIL

De todas essas pedras, de todas,
uma só, onde passa o vento,
escolho para meu uso e alegria.


A LUZ DOS CAMINHOS

LUZ RECENTE

Respiras com cautela a luz
recente.
Deve ter acordado: canta.
Anos e anos adormecida
no fundo da pupila.
Já nem te lembravas
que fora assim tão jovem
e tinha
o nome da alegria.
Agora canta. Canta
em surdina.

CONVERSAS DESCENDENTES


CAMINHOS DE PEDRA


O AMIGO DO LADO

TODA A MÚSICA

sem ser inverno ainda
o cheiro tímido á já da chuva.
Sentia o mar subir, tinha as mãos
prontas para levar à boca:
toda a música
era só aquela rebentação.



AS MESMAS CORES NO FIM
A PAIXÃO

Levanto a custo os olhos da página;
ardem;
ardem cegos de tanta neve.
Faz dó esta paixão pelo silêncio,
pelo sussurro do silêncio,
pelo ardor
do silêncio que só os dedos adivinham.
Cegos, também.

PELA CEPA TORTA

À HORA DO FECHO

EPITÁFIO

Barcos ou não
ardem na tarde.

No ardor do verão
todo o rumor é ave.

Voa coração.
Ou então arde.