Boas vistas

segunda-feira, 18 de abril de 2011

LINHA DO TUA: Tua- Abreiro. 1º dia

" Nos finais do séc. XIX e durante a República, as atenções dos governantes que se interessaram por este inacessível Trás-os-Montes voltaram-se para o caminho de ferro. Quando a construção da Linha do Douro chegou à foz do Tua prosseguiu-se ao mesmo tempo em duas direcções, uma pelo Tua até Mirandela e outra pelo Douro até Barca de Alva, sendo estas duas estações inauguradas no mesmo ano de 1887. Dava-se assim a prioridade ao escoamento do vinho do Porto, que constituía, de facto, um produto de grande valor económico em termos internacionais". (MATTOSO. "O Sabor da Terra", p. 166.)
Este texto pretende mostrar porquê o caminho de ferro numa região sempre tão esquecida, inacessível e sempre votada ao abandono. Se houve algo em que realmente se investiu para bem desta região (mesmo que associada ao lucro ou à ganância de alguns) foi, de facto, a Linha do Douro e todos os seus ramais de via estreita. 
Poderia ter sido um motor de maior desenvolvimento, de maior interesse de ligação e saída para o país vizinho, única fronteira terrestre de saída para uma Europa, sempre longínqua. Podería ter sido tanta coisa positiva que até dói o seu abandono. Bastava comparar com outros países, nomeadamente a Espanha, para tentar perceber que a falta de vontade de alguns, os seus interesses e a sua ganância, são o principal entrave à dignificação desta região... alguns, como o nosso ex ou ainda no activo Primeiro Ministro, homem duriense, ou deputados eleitos por esta região que, alarvemente no parlamento, dizem as maiores atrocidades contra os transmontanos e esta região.
Pior: hoje a distância de Trás-os-Montes a Espanha e à Europa, é apenas pontualmente encurtada. Nada nem ninguém neste país consegue fazer esta região sair da interioridade. Pelo contrário, as medidas tomadas até agora tornaram-na mais deserta, mais imprópria para viver. É apenas uma morte lenta e violenta!
 Do combóio, ficam agora os ramais de via estreita do Douro, TODOS, literal e completamente abandonados, e no centro de projectos de duvidosa produção energética e que nunca beneficiam os próprios transmontanos. Dos combóios, resta ainda algum odor dentro dos túneis desertos...
Acerca das barragens escreve ainda Mattoso: " Menos ainda beneficiaram [os transmontanos] das enormes barragens que aí [no Douro e seus afluentes] se construíram a partir dos anos 50 do séc. XX. Pelo contrário: vieram inundar as suas aldeias, os seus campos e as suas pastagens; desapareceram debaixo das águas (...) e a energia que passaram a produzir de pouco serviu aos transmontanos (...) Ibiden p. 159.
Este é o panorama actual, quando temos de pensar naquilo que nos tentam oferecer com a barragem a ser construída perto da foz do Rio Tua. Veja-se com apurada atenção o magistral documentário de Jorge Pelicano "Pare, escute, olhe".
E será necessário repensar ou fazer alguns reflectir, pela primeira vez, naquilo que é o Douro como Património da Humanidade, classificação oferecida pela UNESCO, onde se insere também o Vale do Tua??? ou na paisagem como parte integrante de uma cultura, no espaço como construção natural e do homem e parte integrante deles mesmos? Como fazer parar a ganância de alguns que têm de fazer circular materiais, projectos, a maior parte das vezes duvidosos, para obtenção de lucros fáceis sem olhar em seu redor? Somos mortais, não levamos o dinheiro para debaixo da terra... e a terra ficará, mesmo que o homem desapareça.

Mas, enfim. Pela segunda e última vez quiz ver o Tua ainda no seu ímpeto selvagem. Uma há 15 anos com um amigo, no pino do verão, com temperaturas superiores a 40ºc. Desta vez com outros dois amigos, com olhares diferentes mas atentos ao natural e ao humano. dois compinchas de pés duros e solas sólidas. A linha doTua  desactivada oferece-nos novamente a melhor perspectiva de um mundo que não se esgota no material ou no palpável. Ela é um símbolo da maior das espiritualidades quando enquadrada entre o divino e o humano, entre o Homem e a natureza.

Para tal, começa-se no Douro, afinal a razão de muitas das grandes obras humanas nesta região. E a vista alcança a Quinta dos Aciprestes, com o sol a nascer sobre o Monte Redondo.

O Km 0 é mesmo ali. E é zero para tudo, tal é o abandono das carruagens, das locomotivas, dos carris... dói! Dói sentir o desinteresse de quem manda. A incapacidade de gerir, de e para o povo.  Mas, hoje é um dia de alegria, porque a paisagem merece ser apreciada.
A estação do Tua, tem esta particularidade de ter sido o início de grandes viagens.

A linha segue para oeste. Vai à procura de um rio selvático que será amordaçado brevemente. Segue rente à linha maior do Douro, aquela que conduz para mais longe ainda, que faz os homens renegar a interioridade. 

E os homens, aqueles que persistem em pertencer à Terra, deixam-se conduzir através da linha que os conduzirá ao interior, da terra e de si mesmos. E vê-se, que abunda a coragem nos passos iniciais.

Após sentir a foz deste rio, olhamos para trás e vemos o sol a nascer... no Monte Redondo. E assim nasceu a cor.

Deste caminheiro falaremos bem, daqui a alguns quilómetros. 

Aqui vemos o Túnel das Presas e as pressas de um rio a querer fugir para águas mais calmas e mais profundas.

Esta é a "Moderna ponte de betão, que relaciona a estrada de Carrazeda de Ansiães com a de Alijó", atravessando o rio Tua, como escreveu Sant'Anna Dionísio no seu Guia de Portugal. A construção é de 1937 a 1939 com projecto do Engº. Edgar Cardoso.

E esta é a perspectiva do viaduto das Presas e o seu túnel, nos primeiros metros da linha, numa direcção norte, a seguir à foz do rio.

Vista para sul, após a transposição do viaduto das Presas. Este viaduto veste-se de um modo inabitual. Está coberto de madeira para os "srs. engenheiros passarem por cima com materiais,  para construir uma barragem que não vem melhorar a vida das pessoas e vem estragar completamente os elementos humanos e naturais desta região. Não sei se vai ser um miradouro para ver a barragem de baixo para cima, qual miradouro das cataratas de Niagara, se vai ser apenas submerso juntamente com o seu túnel. O conjunto da foto acima é, sem dúvida, um dos principais motivos de admiração desta linha.

Este é o segundo caminheiro, envolto em mistério e pensativo. A sua juventude é de idade adulta.

O RIO! Há 15 anos pareceu-me um rio apagado, calmo, lento, cheio de calor. Hoje é um rio decidido, impetuoso!

A primeira flôr é TUA!

O Tiago!

Paisagem para sul. O Douro rio, vai-se afastando. O Tua corre aqui muito veloz. São as Fragas Más.

Pode sentir-se o odor do rosmaninho.

O rio a cores. Parece sereno mas anda sobressaltado.

Do túnel das Presas até aqui a linha já foi arrancada. Coisas da EDP!!

Um rio num quilómetro.

Linhas tortas!

O primeiro apeadeiro.

À saída do Túnel das Alvelas, a cores.

Mais do rio, a cores.

Interioridades.

Exterioridades.

Deuses no rio.


À esquina do quilómetro.


No castanheiro.

Levemente arqueada.

Abandonos.

Esperas do jovem caminheiro.

O Achim.

Brincadeiras impróprias para vertiginosos.



Fungos.

Pequeno desmoronamento.

Santa Luzia, durante o dia.

Encruzilhada na Linha do Tua.

Desencruzilhador.

Espaços floridos.

A tal pedra primeira.

Das estevas.

Um apeadeiro que destoa no meio do abandono do nada. Apesar de tudo, reconstruido, sem olhar ao todo da arquitectura ancestral. Bonito mas para servir quem?

Encontro com um grupo de fãs. Também temos pena que a linha fique submersa. Dizem que em 16 quilómetros, os mais belos!

A paisagem começa suavemente a mudar.

Uma Gentiana verna.

Avançamos, com energia.

Civilização, por fim. Maldito "desenvolvimento"!

O futuro IC5.

Estrada de acesso a Brunheda. Os carris afinal já "submersos".

Linhas muito tortas.

Estação da Brunheda.

Inclinações.

Rectas persistentes.

Represa de Codeçais.

Sinais da memória a vapor.


Nem o cansaço desmoraliza a viagem.

Um rio mais lento, mas mais profundo.

Ponte da Cabreira.

Papel vegetal.

Quase o fim do projecto de hoje.

Ponte do Engº. Correia Araújo, da Nacional 314, o fim do trajecto de hoje. 

Espreitadela.

Abreiro. Há 15 anos estava em reconstrução. Hoje está abandonada.

"Crossroads"

Distinções.

Vista superior.

Pés de fora. Para o Achim o maior dos méritos porque não desistiu da paisagem, de nós.

A Linha do Tua foi construida em duas fases. A primeira de 1885 a 1886 até Mirandela, que será o objectivo deste passeio. " A abertura dos primeiros 20 quilómetros do primeiro troço constituiu uma tarefa de engenharia e de execução difícil e arrojada, tão selvática e aparentemente inaproveitável se apresenta a pedregosa e alcantiladíssima garganta que o rio Tua escavou para alcançar o gigantesco desfiladeiro do Douro. No parecer dos melhores técnicos, essa obra não é inferior, em responsabilidade, a algumas vias helvéticas ou francesas das cercanias dos Alpes. É particularmente impressionante o trecho das chamadas Fragas Más. A construção da linha nesse despenhadeiro exigiu vigoroso ânimo aos engenheiros e trabalhadores que aí formigaram por algum tempo, a romper rochedos e esporões, muitas vezes dependurados por cordas e empoleirados em pranchas rapidamente guindadas quando se acendiam os rastilhos." SANT'ANNA DIONÍSIO, Guia de Portugal, Trás-os-Montes e Alto Douro, p.910.

Esperemos pela próxima publicação. O mais ansioso será o Achim que abdicou do segundo dia para fazer um passeio a pé, também pelas margens do Tua com o Grupo de Montanhismo de Vila Real. O melhor será sempre cruzar experiências.



domingo, 10 de abril de 2011

LUMIX FS35


Estas são as primeiras impressões da máquina fotográfica nova do Martim.






Experiências iniciais e primeiras com uma lente Leica, esperando que a luz seja perfeita.
A luz do Martim, nesta PRIMAVERA!

E porque hoje visitamos a antiga casa de Sofiade Mello B. Andresen, hoje o Jardim Botânico da cidade do Porto, cabe aqui o pema desta  grande poetisa


PROMESSA

Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CHAVES

Esta é uma terra especial. Não apenas pela sua história a que imediatamente podemos associar os monumentos nela espalhados, mas acima de tudo porque é uma terra que me viu crescer. Cada pedra, cada rua, cada pôr-do-sol, cada paisagem, tem um significado de permanência, de sentido de posse. Cada vez que a ela regresso é um regresso a casa.`
É uma cidade que se pode até espraiar em vaidades. O rio, a água, são mais do que o seu elemento primordial, daí que as pontes, agora em maior número, também estejam associadas a essa vaidade.

Esta é a velha, romana

A nova


E as famosas pôldras

Caminha-se bem junto às margens do Tâmega, sem sair da cidade. Finalmente pode-se usufruir das Termas, do Rio e da Cidade. Vale a pena!

Também vale a pena, mais até para os flavienses, percorrer o blog:



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O CAMINHEIRO

"El camiñero valiente"
desde os seus 5 anos que assim é apelidado.


ASSIM ERA, ASSIM JÁ NÃO É


Esta era a "automotora" que serviu nos últimos tempos a linha do sabor. Recordo que, este "autocarro" a gasolina, transportava os passageiros com destino a outros mundos para lá do nordeste português.
Lembro-me de sair de Moncorvo nesta "coisa", mas ter a certeza de ir ao encontro de algo inesperado e novo, onde a expectativa me deslumbrava numa iniciação de viajante. Entre oa meus 5 a 10 anos, era este o meio que me transportava para o almejado desconhecido, desde as praias da costa portuguesa, a Coimbra ou Porto.
Podia-se encontrar quase todo o Portugal apenas sobre os carris, apreciando não apenas o sentido das viagens mas, acima de tudo, sentir intensamente as paisagens do Tua, do Sabor, do Corgo, do Douro... e tantas outras!  Sabiamos Portugal de lés a lés, olhando paisagens deslumbrantes como a deste Trás-os-Montes.
Quanto ao Martim, reviveu recentemente a paisagem de Torre de Moncorvo e descobriu um Douro e um Sabor novos, que já trazia nos genes, mas que nunca tinha visto deste ângulo. Não conheceu a automotora mas já recriou esta pequena viagem - entre Pocinho e Moncorvo- apesar de se ter embrenhado numa paisagens apenas de restos humanos, cacos, ferro retorcido e vegetação a tenter esconder uma vaidade humana que foi a Linha do Sabor.
Miguel Torga, escreveu:

Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.

Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.

Algo com que começa o seu livro "Portugal".

Ou ainda, Sant´'Anna Dionísio, refere nos seus "Guia de Portugal", sobre Trás-os-Montes:

Terra pedregosa, magra e ascética-, aqui e além matizada pela frescura rústica e pastoril de algumas veigas-, (...)província portuguesa de mais vincado cunho telúrico e humano. Para quem tiver a paixão de conhecer o lastro milenário dos costumes, poucas terras serão mais pródigas de revelações.

Outros grandes nomes da cultura portuguesa se atreveram a desvendar estas terras de Portugal e em especial a de Trá-os-Montes, sabendo e conhecendo in loco as suas potencialidades, os seus saberes e sabores. Apenas os nossos sucessivos políticos, mal escolhidos, não entendem, não sabem nem das gentes nem das belezas destes sítios. E, nessa enorme ignorância, desacertam os tempos e os espaços, fazendo asneira atrás de asneira, como a de deixar cair, sem qualquer remorso ou emoção, as linhas de via estreita que hoje estão completamente abandonadas, como o exemplo citado da Linha do Sabor. É triste e revoltante, mas a impotência do comum mortal transmontano só pode ser escamoteada se olharmos, virmos e mostrarmos o que é, o que foi e até, porque não, o que poderia ter sido, se tivermos arte para tanto.
O Martim diz, com 12 anos, "como é possível que esta linha não esteja a funcionar?".
Palavras sábias de desilusão....! E é ele, e muitos como ele, que vão herdar este país ABANDONADO, ESQUECIDO!!






terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Bastão

Estes são os bastões de um pobre caminheiro. Sem eles quase nada se anda, poucos obstáculos serão transponíveis.
Salvo aqueles que nitidamente foram comprados, a maioria são bastões feitos à mão, muitos deles colhidos nas terras de Trás-os-Montes, outros desde a Suiça aos Picos da Europa.
Conhecem várias terras e montes, vales e rios, linhas de combóio ou simplesmente este canto onde se encostam.
As ruas de Santiago ouviram os seus ressoares nas pedras sujas e rasgadas por tantos pés peregrinos. Os cães menos simpáticos temeram-nos e as silvas afastaram-se, a custo, mas dobraram-se à sua força e persistência.
Bastões, enfim, que acompanham as solas e lhes dão vigor para mais um quilómetro, para mais uma esperança de caminhada. Aguardam a próxima incursão, pacientemente.